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poucas filiações

Partidos estão sentindo na pele a dificuldade de arregimentar jovens para se filiarem

Jovens preferem ficar longe da política partidária

10/11/2019 14h39
Por: Ary Ramalho
Fonte: Jornal Correio
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Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Com participação ativa em grupos de discussões nas redes sociais, jovens, na faixa etária de 16 a 17 anos, preferem ficar de fora, ou se abster, quando o assunto é política partidária, ou até mesmo, o direito a votar para escolher seus representantes nas eleições. Os dirigentes das alas jovens de partidos estão sentindo na pele a dificuldade de arregimentar jovens para se filiarem e, principalmente para participarem dos processos eleitorais.

Esse desinteresse dos jovens pela política, que vem sendo crescente, não só na Paraíba, mas em todo País, está associada à descrença da juventude em relação aos políticos e aos casos de corrupções envolvendo gestores públicos. Mesmo com a inversão da pirâmide populacional, em que o número de jovens, de um modo geral, tem sido reduzido no Brasil, há uma desmobilização dos jovens no que diz respeito à militância política partidária, que acaba sendo maior do que a redução da população de jovens.

Dados divulgados pelo Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB) mostram que o total de eleitores entre 16 e 17 anos, cujo voto é facultativo, vem sofrendo reduções sistemáticas. Nas Eleições de 2016 o número de eleitores com 16 anos no Estado era de 31.263. Em 2018 passou para 16.745 e este ano, até final de setembro, eles representavam apenas 7.915, representando uma redução de 74,68% nesse eleitorado.

Os eleitores com faixa etária de 17 anos, nas Eleições de 2016, nas quais foram escolhidos prefeitos, vice-prefeitos e vereadores nos 223 municípios paraibanos, era de 44.520. Em 2018, eles passaram para 32.474 e este ano representam apenas 25.841, até o final de setembro. A redução nos últimos quatro anos representa 41,96%.

O juiz Arthur Fialho, integrante do TRE-PB, vice-diretor da Escola Judiciária Eleitoral da Paraíba (EJE-PB), destacou que com a Constituição Federal de 1988 foi garantido aos jovens de 16 e 17 anos o direito ao voto facultativo. “Desde então, a participação dos jovens na vida política vem sendo cada vez mais incentivada, inclusive através de campanhas institucionais da própria Justiça Eleitoral”, comentou.

Segundo ele, a participação dos jovens na vida política do país é de suma importância para o fortalecimento da democracia e oxigenação dos debates, sendo essencial que exista representatividade jovem na esfera política. “Afinal, é no campo político que se estrutura o futuro da nação”, afirmou.

O magistrado disse ainda, que historicamente o jovem sempre foi agente relevante nas transformações políticas e sociais, e atualmente não é diferente. “Contudo, temos agora as redes sociais, amplamente utilizadas pelos jovens, e que acabam servindo como arena para debates políticos. Acredito que a utilização de plataformas virtuais para fins políticos deve aumentar cada vez mais e, se utilizada corretamente, contribuirá para o desenvolvimento político da população mais jovem”, comentou.

Arthur Fialho defende, no entanto, que deve existir um constante trabalho de conscientização e motivação para que a população sempre busque maiores informações sobre os materiais que são divulgados nas redes sociais, pois estas são muitas vezes utilizadas como vetores para disseminação de conteúdos de desinformação, popularmente nominados de fake news.

“É incontestável que os jovens possuem grande poder de mobilização social e seus movimentos geralmente alcançam elevado grau de visibilidade, agora potencializada com as redes sociais. Na minha ótica, a cada dia vem crescendo o interesse da população jovem em relação aos assuntos políticos, inclusive daqueles que possuem apenas 16 e 17 anos de idade. Dados estáticos sobre o comparecimento às urnas daqueles que possuem direito ao voto facultativo não podem ser considerados isoladamente para mensurar o interesse de tal público no universo político”, declarou.

Jovens podem ser responsáveis por grandes transformações

Para o cientista político Lúcio Flávio Vasconcelos, doutor em história política pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), as grandes transformações políticas no Ocidente foram feitas pelos jovens. Ele lembrou que a média de idade dos líderes da Revolução Francesa era de 25 anos. “Pedro I proclamou a independência do Brasil com apenas 24 anos, para ficarmos apenas em dois exemplos”, comentou.

Segundo ele, a política só se renova com o envolvimento e participação da juventude. “É um erro achar que os jovens não gostam de política. Na verdade, o que eles não querem participar das formas tradicionais da política. A pauta política dos jovens passa pelas questões de gênero, sexualidades, raciais, meio ambiente, educação e cultura”, afirmou.

De acordo com Lúcio Flávio, os partidos que quiserem realmente incorporar os jovens aos seus quadros, de maneira séria e respeitosa, têm que colocar em seus programas e, principalmente, nas suas ações esses temas. Sob o risgo de verem o fosso que separa os jovens da chamada “classe política” se aprofundar. “Acredito que, só com a maior participação dos jovens na vida política, poderemos ter uma real e positiva na transformação da sociedade, principalmente diante da onda conservadora que o país vivencia”, opinou.

Falta de estímulos para participação de jovens

Para o cientista político e professor da UFPB, José Henrique Artigas de Godoy, o direito opcional de voto de jovens com 16 e 17 anos no Brasil ainda não é suficiente para estimular uma expressiva participação dessa faixa etária entre o conjunto dos eleitores.

Segundo ele, a participação proporcional de jovens nas últimas eleições, de 2018 cresceu em relação às de 2014, atingindo 29,1% entre os aptos a votar. A proporção, contudo, foi inferior à verificada nos pleitos de 1998, 2002, 2006 e 2010. “A maior participação proporcional de jovens com direito opcional de voto ocorreu nas eleições de 2006, quando 36,9% dos aptos foram às urnas. Os percentuais verificados no último pleito indicam uma oscilação positiva e relativamente expressiva, com crescimento de 5,8% de 2014 a  2018”, comentou.

De acordo com o professor, os dados não permitem a afirmação de uma tendência de crescimento da participação. Mesmo, que a polarização das últimas eleições tenham estimulado o voto dos jovens desta faixa etária, a participação eleitoral destes ainda é relativamente pequena. “Outro dado relevante para avaliar a participação de jovens desta faixa etária nos processos eleitorais indica uma tendência negativa, visto que o número absoluto de possíveis eleitores de 16 e 17 anos vem caindo no país pleito a pleito, acompanhando relativamente à mudança da pirâmide etária da sociedade brasileira, que vem envelhecendo rapidamente”, explicou.

O número de aptos ao voto entre este grupo de jovens caiu 14,53% de 2014 para 2018, um valor proporcional muito expressivo. Em números absolutos, conforme explicou o cientista político, no pleito de 2018 observou-se uma redução de mais de 230 mil eleitores nesta faixa etária em comparação com a eleição nacional anterior, de 2014. Enquanto o número de idosos aumenta, o de jovens vem diminuindo e hoje não chegam a 1% do total do eleitorado nacional, o que pode sugerir que a força eleitoral da juventude vem diminuindo.

“Esta é uma tendência persistente, o que implica em desafios ainda maiores para os partidos políticos, que já gozam de baixa representatividade e demonstram, com raras exceções, uma grande dificuldade de renovação geracional entre os militantes e candidatos”, avaliou.

Artigas destacou, ainda, que o desinteresse dos jovens pela política vem sendo constatado em um conjunto amplo de pesquisas desenvolvidas nos últimos anos, as quais confirmam que o desgaste das instituições políticas, notadamente os Parlamentos e partidos, vêm provocando um afastamento entre os jovens e a política, o que se reflete no baixo comparecimento eleitoral.

“Se observarmos as tendências de filiação partidária nos últimos anos perceberemos uma tendência de queda no número de partidários em várias grandes agremiações, algumas legendas vivenciaram crescimento significativo, contudo, os jovens não compõem a minoria entre estes novos filiados, seguindo aproximadamente a proporção de distribuição do eleitorado por faixa etária, o que não permite afirmar que esteja ocorrendo uma renovação geracional no interior das agremiações partidárias”, comentou.

Segundo ele, embora a média etária tenha indicado um envelhecimento contínuo do eleitorado, o número de candidatos jovens aumentou no último pleito, mas não a ponto de mudar significativamente a faixa etária dos eleitos, que continuam a ter majoritariamente, no tangente à Câmara Federal, idades superiores a 35 anos.

O professor revelou ainda, que não há dados disponíveis sobre as escolhas eleitorais dos jovens com 16 e 17 anos, por isso, não é possível afirmar que a participação de jovens nos partidos e nas eleições possa ser parâmetro para avaliar tendências de renovação no aspecto político e partidário, pois há jovens que buscam renovação, mas também há os que optam por tendências conservadoras de reprodução da representação concentrada entre as faixas mais elevadas de idade.

“Com os dados oficiais disponíveis no TSE e nos TREs e pelas pesquisas feitas na academia, particularmente por cientistas políticos, não é possível associar a participação dos jovens na política com processos de renovação de lideranças nas instâncias de representação, em governos e parlamentos. Especialmente nas vésperas de eleições, os partidos sempre se mobilizam para atrair jovens para suas agremiações, estimulando novas filiações e candidaturas, contudo, os resultados eleitorais não vêm sugerindo que essa tática venha tendo reflexos significativos para a eleição de jovens para cargos de representação”, comentou.

De acordo com Artigas, o pequeno percentual de eleitores com 16 e 17 anos, a queda contínua do número destes adolescentes aptos a votar e o envelhecimento do eleitorado, os partidos não vêm privilegiando a atenção à atração desta parcela específica do eleitorado, focando antes em outras faixas etárias, o que prejudica ainda mais a inserção destes adolescentes na vida política nacional, criando-se um círculo vicioso.

“A baixa participação política entre os adolescentes aptos a votar não é um bom sinal para a democracia, pois torna-se ainda mais difícil a tarefa, necessária, de formar cidadãos ativos e participativos, que intervenham na vida pública e promovam uma renovação geracional, fortalecendo as instituições partidárias e oxigenando as esferas de poder”, declarou.

Dirigentes revelam as dificuldades de atrair jovens para os partidos

A falta de interesse dos jovens, principalmente na faixa etária de 16 a 17 anos, vem sendo sentida na pela pelos próprios dirigentes das chamadas alas das juventudes dos partidos. O presidente estadual da Juventude do PSDB na Paraíba, Luiz Rodrigues de Carvalho Neto, que representar uma juventude partidária tem ficado cada dia mais difícil. “Os escândalos nacionais são nosso maior obstáculo, porque a grande maioria da população generaliza, e isso termina dificultando a busca por jovens interessados pela política e mais ainda em ser político”, comentou.

De acordo com Luiz Neto, uma forma de estimular a participação dos jovens é aproveitar os bons nomes que o partido tem em nível nacional, como Pedro Cunha Lima, Tabata Amaral, Eduardo Leite, Bruno Covas, entre outros, e mostrar aos jovens que existe sim uma forma de fazer a boa política, com honestidade, trabalho e trazendo bons frutos para a população.

Luiz Neto destacou ainda, a Juventude do PSDB da Paraíba tem o privilégio de ter um deputado federal como Pedro Cunha Lima a frente do partido, que tem auxiliado muito na busca de novas lideranças, com a sua nova forma de fazer política, combatendo à corrupção e os privilégios.

“O jovem poderia votar e participar ainda mais do processo político eleitoral do País. Mas é preciso que haja mais estímulos, campanhas voltadas para o público jovem, que está preocupado com o futuro do país, mesmo que ainda seja uma pequena parcela do eleitorado, pode fazer a diferença com sua capacidade de mobilização”, comentou o tucano.

O presidente da Juventude do PSD na Paraíba, Vitor Ribeiro, disse que apesar da baixa participação dos jovens na política, eles têm toda capacidade de assumir um protagonismo porque tem facilidade para discutir sobre todos os tipos de assuntos, principalmente os que estão na atualidade, mas no que diz respeito a temas políticos sempre tendem a recuar, por não concordarem com práticas utilizadas na política brasileira.

“As redes sociais, vem sendo o principal atrativo, onde o números de jovens vem aumentando cada vez mais, inclusive começando a estimular que haja também uma maior participação política. Mas isso tem que ser avaliado de uma maneira cautelosa, pois devemos ter muito cuidado com os Fakes News que vem crescendo ao longo do tempo, o que nos levar a filtrar e verificar a veracidade para não ficar compartilhando notícias mentirosas”, comentou.

De acordo com Vitor Ribeiro, como forma de estimular o ingresso de jovens no partido e até mesmo para que comecem a se interessar pelo processo político eleitoral, o partido está preparando vários eventos  de  capacitação, para preparar os filiados para uma possível candidatura no ano que vem.

“Essa preparação é de fundamental importância. Como também estimulo a novas filiações, para atrair mais pessoas que queiram ser candidatas, pois os eleitores estão buscando candidatos capacitados para representá-los”, revelou.

O presidente da Juventude do Solidariedade na Paraíba, Matheus Torres, também enfrenta um grande dilema para arregimentar jovens para se filiarem no partido e se prepararem para disputar as eleições. Ele revelou que  antes de chegar ao camando estadual, sua atuação era em Bayeux, onde, segundo ele, os jovens sofreram uma grande desilusão com um político que ajudaram a eleger.

“Em Bayeux muitos jovens acreditaram no prefeito Berg Lima, votaram nele, participaram do processo eleitoral, mesmo sem querer envolvimento com a política nacional devido ao crescente número de casos de corrupção. Isso se agravou ainda mais, como vivenciamos isso em nossa cidade”, revelou.

De acordo com Matheus Torres, hoje os jovens têm acesso a internet e informações, em tempo real, que só fazem a aumentar o descrédito na política. “Esse acontecimentos vem se tornando um grande vilão para afaastar os jovens, por isso todos tendem a tentar fugir. Há não ser, que seja preparado para buscar fazer a diferença e acabar com essa onda, buscando chegar ao poder”, comentou.

O presidente da Juventude do Solidariedade disse que o partido vem organizando uma série de cursos para preparar os jovens e fazê-los a tomar gosto pela política e fazê-los perder o medo de participar. “Nós acreditamos só com a capacitação, cursos de formação é que vamos contribuir para reverter esse quadro, e atrair mais jovens para ingressar na política com o objetivo de combater à corrupção e tirar os mal políticos do poder”, declarou.

Igor Martins, presidente da Juventude do PSL na Paraíba, disse que tem percebido que os jovens hoje conversam muito mais sobre política, mas não se engajam na política. Segundo ele, os jovens hoje estão desacreditados, principalmente na política partidária.

“Hoje se conversa muito mais sobre a política ideológica e muito pouco sobre a política partidária, o que na verdade é tão importante quanto à ideológica. Porque no nosso modelo atual, para disputar um pleito, para ter um mandato eletivo é necessário entender sobre política partidária”, comentou.

Ele considera que há muitas discussões sobre política, principalmente após o advento das redes sociais. Mas, ainda não se tem a capacidade de gerar um engajamento tão grande como se deveria. “Nós temos hoje jovens atuantes, mais participantes, dentro do espectro dos que gostam da política. Aqueles que gostam da política, com o advento das redes sociais eles estão se tornando mais ativos, tanto no sentido de participar militando, quanto no sentido de votar, quanto no sentido de participar de um pleito, como candidato”, afirmou.

Para Igor Martins, o envolvimento dos jovens se tornam um pouco mais efetivo para aqueles que realmente gostam da política. “Mas, mesmo entre esses, ainda há um desinteresse muito grande, pele descrença, na política”, afirmou, defendendo a necessidade de uma reforma dentro dos partidos políticos, que é uma das propostas do PSL.

De acordo com Martins, com essa reforma, terá que possibilitar que os jovens possam entender mais da política partidária, participando de palestras e ações dos partidos em todas as áreas. “É importante que o jovem entenda como se dar o processo eletivo, e como poderá ser sua participação democrática através de um partido, os conscientizando que sem isso eles não conseguem realmente ter uma representatividade na política. Ele pode se engajar e participar ativamente”, argumentou, enfatizando que tudo esse desinteresse também é resultado de um desconstrução de anos, por culpa dos próprios partidos que não incentivam suas alas jovens.

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